Estudo identificou fibras plásticas e poluentes persistentes em sedimentos, peixes e invertebrados coletados entre 400 e 1.500 metros de profundidade, a cerca de 140 km da costa.
Pesquisadores do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) identificaram microplásticos e poluentes orgânicos persistentes em águas profundas da Bacia de Santos, no litoral paulista. A análise foi feita em sedimentos, peixes e invertebrados coletados entre 400 e 1.500 metros de profundidade, em uma área localizada a aproximadamente 140 quilômetros da costa.
O estudo foi publicado no periódico científico Marine Pollution Bulletin e integra uma linha de pesquisa apoiada pela FAPESP sobre biodiversidade e impactos ambientais no oceano profundo. Segundo a Agência FAPESP, os materiais encontrados incluem fibras plásticas e compostos usados como isolantes elétricos e retardantes de chamas.
O que a pesquisa encontrou
A equipe analisou duas classes de poluentes orgânicos persistentes: os PCBs, compostos usados historicamente como isolantes elétricos, e os PBDEs, utilizados como retardantes de chamas. Nos sedimentos, os pesquisadores detectaram PCBs. Já nos peixes analisados, foram encontradas as duas classes de poluentes.
Entre os invertebrados, o foco foi a busca por microplásticos, fragmentos com menos de 5 milímetros. Uma das espécies com maior presença desses materiais no sistema digestório foi o pepino-do-mar Deima validum, organismo que vive no fundo do mar e se alimenta de detritos.
Por que o dado preocupa
O mar profundo costuma ser percebido como um ambiente distante da atividade humana. O estudo mostra o contrário: resíduos produzidos em áreas costeiras, industriais ou urbanas podem alcançar regiões de difícil acesso, afetando organismos que vivem a centenas ou milhares de metros abaixo da superfície.
Os pesquisadores apontam que microplásticos e poluentes persistentes podem ser transportados por diferentes caminhos, incluindo correntes oceânicas, sedimentos, atmosfera e atividades econômicas no mar. A origem exata dos contaminantes ainda precisa ser aprofundada em novas pesquisas.
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Os microplásticos podem vir de embalagens, tecidos sintéticos, pneus, tintas, equipamentos industriais, resíduos urbanos e materiais usados em atividades marítimas. Uma vez no ambiente, fragmentam-se em partículas pequenas e podem ser ingeridos por organismos marinhos.
Os poluentes orgânicos persistentes preocupam porque têm degradação lenta e podem permanecer no ambiente por longos períodos. Em cadeias alimentares, compostos desse tipo podem se acumular em organismos e circular entre diferentes níveis da vida marinha.
O estudo da USP e do Ipen é um primeiro levantamento e deve ser aprofundado. Ainda assim, o resultado já aponta a necessidade de monitorar o oceano profundo brasileiro com mais regularidade, especialmente em áreas de intensa atividade econômica.
A identificação de microplásticos e poluentes persistentes em águas profundas da Bacia de Santos mostra que a poluição humana alcança ambientes antes considerados remotos. Para São Paulo, o alerta é direto: preservar o litoral exige ações integradas de saneamento, gestão de resíduos, fiscalização e mudança de consumo. O mar profundo pode estar longe da rotina urbana, mas já registra os impactos dela.
Vinicius Mororó – Jornalista Atípico
Editor-Executivo-Regional
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