O Brasil registrou, no mais recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o PNUD, divulgado em início de maio de 2026, um avanço de cinco posições no ranking global do Índice de Desenvolvimento Humano, passando da 87ª para a 82ª colocação entre os 193 países avaliados pela metodologia da agência da ONU. O país atingiu, pela primeira vez em sua história, um IDH classificado como “muito alto” pelo PNUD, superando o limiar de 0,800 na escala de zero a um utilizada pelo índice. Os principais fatores que impulsionaram a melhora foram o crescimento da renda per capita em termos reais, a ampliação do acesso à educação superior e a melhora nos indicadores de mortalidade infantil e expectativa de vida, que avançou para 77,4 anos em média nacional.

O IDH, desenvolvido pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq em colaboração com o indiano Amartya Sen nos anos 1990, foi concebido como uma alternativa ao Produto Interno Bruto per capita como medida do progresso das nações, por incorporar dimensões de bem-estar humano que o PIB, por si só, é incapaz de capturar. O índice é composto por três dimensões: longevidade e saúde, medida pela expectativa de vida ao nascer; educação, medida pela média de anos de escolaridade e pelos anos esperados de escolaridade para crianças em idade escolar; e padrão de vida, medido pela renda nacional bruta per capita em paridade de poder de compra. A síntese dessas três dimensões em um único indicador permite comparações internacionais que iluminam tanto os progressos quanto as limitações das políticas de desenvolvimento de cada país.

A melhora do Brasil no IDH 2026 é real e merece reconhecimento. Subir cinco posições em um ranking de quase 200 países, superando o limiar do “muito alto”, é resultado de décadas de investimento em saúde pública, educação básica e políticas de transferência de renda que reduziram a extrema pobreza e ampliaram o acesso a serviços essenciais para as camadas mais vulneráveis da população. O Programa Bolsa Família, os investimentos do SUS na atenção básica, a expansão das universidades federais durante os governos Lula e o crescimento do ensino técnico profissionalizante são contribuintes estruturais dessa trajetória de melhora que as cinco posições ganhas no ranking da ONU sintetizam de forma elegante.

Entretanto, os especialistas em desenvolvimento humano são unânimes em alertar que o IDH médio do Brasil esconde desigualdades internas de uma profundidade que nenhum indicador agregado é capaz de revelar adequadamente. O IDH desagregado por raça, gênero e região conta uma história muito diferente da narrativa triunfal de um país que atingiu o “muito alto”: o IDH de um brasileiro negro no Norte do país ainda é equivalente ao de um país de desenvolvimento médio; o IDH das mulheres, penalizado pelos diferenciais de renda e pelas barreiras de acesso ao mercado de trabalho formal, está sistematicamente abaixo do IDH dos homens; e o IDH das periferias das grandes cidades contrasta de forma gritante com o IDH dos bairros nobres das mesmas metrópoles.

A subida no IDH global não elimina o fato de que o Brasil segue sendo um dos países com maior coeficiente de Gini do mundo, indicador que mede a concentração de renda na escala de zero, perfeita igualdade, a um, concentração máxima. Enquanto o país progride em indicadores de desenvolvimento humano médio, a concentração de renda persiste em patamares historicamente elevados, alimentando um paradoxo que o PNUD tem chamado de armadilha das desigualdades: países que melhoram seus indicadores médios sem reduzir a concentração de renda tendem a desenvolver sociedades em que a mobilidade social é limitada, a coesão social é frágil e os avanços do desenvolvimento não se traduzem em democracia mais sólida nem em bem-estar sustentável para a maioria da população.

O avanço brasileiro no IDH é, portanto, motivo de celebração com ressalvas. É um passo real em uma jornada longa, mas não a chegada ao destino. O verdadeiro desenvolvimento humano do Brasil exigirá, nas próximas décadas, não apenas manter a trajetória de crescimento dos indicadores médios, mas fundamentalmente reduzir os abismos que separam os brasileiros por classe, raça, gênero e região, abismos que o IDH médio tem a limitação estrutural de não conseguir mostrar em toda a sua profundidade.

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Marcelo Henrique de Carvalho, editor-chefe

HostingPRESS — Agência de Notícias de São Paulo. Conteúdo distribuído por nossa Central de Jornalismo. Reprodução autorizada mediante crédito da fonte.

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