Elane Santana: a palavra como ponte entre continentes

Há escritores que se contentam em registrar o mundo; outros, mais raros, ousam reconfigurá-lo pela força do verbo e pela generosidade do gesto. Elane Santana pertence a essa estirpe superior. Escritora, psicóloga e mulher negra, natural de São Francisco do Conde, na Bahia, ela assina a organização da antologia intercultural Entre Fronteiras e Saberes: O Caminho que a Unilab Me Contou, obra que merece ser saudada como um acontecimento literário e, sobretudo, humanístico.
Cumpre, desde logo, reconhecer a envergadura da empreitada. Reunir escritores e escritoras de diferentes países africanos e do Brasil em um só volume não é tarefa que se resolva com mero zelo burocrático: exige sensibilidade para escutar, prudência para harmonizar vozes dissonantes e, acima de tudo, uma visão ampla do que a literatura pode e deve ser. Elane Santana demonstra possuir tais predicados em grau eminente. Sua organização converte a pluralidade em concerto, e a diversidade, em unidade orgânica, tal como o regente que, ao conduzir naipes distintos, faz emergir uma só música sem suprimir a singularidade de cada timbre.
A própria concepção da capa, em que cada bandeira representa a origem de um autor ou de uma autora, já revela a delicadeza simbólica da organizadora. Não se trata de adorno gráfico, mas de um manifesto silencioso: ali estão povos, identidades, experiências e trajetórias que se encontram numa construção coletiva. Cada emblema é um testemunho de pertença, e o conjunto, uma cartografia afetiva que desafia a rigidez dos mapas políticos. Quem concebe tal imagem compreende que a forma também pensa, e que o livro, antes de ser lido, já começa a dizer.
O pensamento que orienta a obra é de notável lucidez. Para Elane, a literatura não é ornamento, tampouco passatempo: é instrumento de resistência, educação, memória e transformação social. Em tempos nos quais tantos saberes foram silenciados ou invisibilizados, ela devolve a palavra àqueles a quem a história oficial, por demasiado tempo, negou voz. Quando diferentes povos narram a si mesmos, o mundo descobre outras perspectivas, outras realidades e outras formas de existir, e é precisamente esse alargamento de horizontes que a antologia promove com dignidade e firmeza.
Tal postura, convém sublinhar, não se confunde com militância estridente. Há na escrita de Elane uma serenidade eloquente, uma elegância que persuade sem vociferar. Sua prosa, de tom acolhedor e solene a um só tempo, nasce da convicção profunda de que a escrita pode transformar vidas e aproximar pessoas. É a retórica de quem sabe que a verdadeira força dispensa o estrépito.
Outro traço que enobrece a figura da escritora é a consciência de suas raízes. Ela não apenas porta o nome de São Francisco do Conde: leva consigo, com orgulho, a terra de ancestralidade, resistência e riqueza cultural que a formou. Leva também a força das mulheres negras e a memória de seus ancestrais, como quem carrega um patrimônio inestimável e o devolve ao mundo em forma de palavra. Essa fidelidade às origens confere autoridade moral ao seu discurso, pois não fala de fora, mas de dentro de uma tradição viva, que reconhece e honra.
A formação em psicologia, por sua vez, parece irrigar discretamente o ofício literário. Quem se dedica à escuta da alma humana adquire um olhar especialmente apto a perceber o que une os seres, para além de fronteiras, idiomas e contingências históricas. Não por acaso, a organizadora afirma que, mesmo vindos de lugares diferentes, podemos nos reconhecer uns nos outros. Eis uma sentença que condensa uma antropologia inteira: a de que a alteridade, bem compreendida, é caminho para o reconhecimento mútuo, e não motivo de apartação.
Merece ainda registro a humildade com que Elane se refere à própria tarefa. Declara sentir profunda alegria e responsabilidade por contribuir para o encontro de saberes, e nessa dupla confissão revela o caráter de quem entende a autoria como serviço. Não busca protagonismo; busca congregar. Sua assinatura, acompanhada de gratidão e orgulho, é a de quem sabe que toda obra coletiva é dívida contraída com muitos, e que a grandeza de um projeto se mede pela amplitude de quantos nele encontram lugar.
Os laços históricos e culturais entre África e Brasil, tantas vezes evocados em discursos protocolares, encontram aqui realização concreta. A antologia não se limita a proclamá-los: fortalece-os pela convivência dos textos, pela partilha das memórias e pela celebração da ancestralidade. Nesse sentido, a obra integra uma tradição nobre de diálogo atlântico, à qual Elane acrescenta uma contribuição singular, ancorada na experiência universitária que o próprio título evoca, o caminho que a Unilab lhe contou.
Ao encerrar sua apresentação, a escritora lembra que as fronteiras podem separar territórios, mas não precisam separar corações, culturas e conhecimentos. A fórmula é bela, e é também verdadeira. Entre fronteiras, constroem-se encontros; entre saberes, fortalecem-se identidades; e, por meio da literatura, escreve-se em comum uma história de pertencimento, diversidade e união. Poucas sínteses seriam tão felizes para definir o espírito de um livro e o caráter de quem o concebeu.
Resta, pois, render a Elane Santana a homenagem que lhe é devida: a de uma intelectual que une sensibilidade e rigor, ancestralidade e porvir, escuta e palavra. Sua obra e sua atuação recordam que a literatura, quando praticada com generosidade, é uma das mais nobres formas de hospitalidade entre os povos. Que seu exemplo inspire novos encontros, novas antologias e novas pontes, e que o seu nome permaneça entre aqueles que ensinaram o Brasil e a África a se lerem, enfim, com os olhos da fraternidade.